Sinto a mente imersa em escuridão.
Percebo que não é apenas a mente, mas também meu corpo. Olho em volta e percebo que me encontro no fundo de um poço. Olho para cima, fechado. Sinto faltar-me o ar. Tento inspirar com mais força, inútil. É como se as partículas em suspensão naquele ar parado tomassem conta de meus pulmões sedentos por oxigênio.
Preciso sair. A angústia toma conta de mim. Começo a escalar.
Quanto tempo estive ali, naquela água rasa, parada e imunda? Não que eu conseguisse enxergar muito para definir o estado do local, mas fedia. Coloco a mão na testa como que instintivamente e percebo que há sangue escorrendo. Minha esperança é um pequeno feixe de luz que adentra o poço sutilmente através de um pequenino pedaço não coberto lá em cima. A escalada vai ficando mais árdua. As pedras são escorregadias e meus músculos já começam a doer. Esforço-me ao máximo enquanto subo, tentando não cair. Não sei quantos metros já subi e tenho medo de olhar para baixo. Certamente minha queda significaria minha morte, pois não havia água suficiente para amortecer o choque do meu corpo com a superfície de modo que eu continuasse viva.
Já posso sentir o ar mais leve. Escuto vozes – ao longe – vindas de fora. Finalmente! Quem sabe eu devesse ter gritado antes, em busca de ajuda. No entanto, essa sou eu, sempre tentando resolver tudo sozinha. Sou refém do meu orgulho.
Abro a boca, mas antes de conseguir emitir qualquer som, presto atenção no que as vozes distantes dizem.
“Acho que já morreu, não fez um barulho sequer até agora”.
Voz masculina, levemente familiar. Quem?
“Vamos embora logo, ninguém virá até aqui de qualquer maneira”.
Voz feminina, também familiar. Por que não consigo reconhecê-las?
Escuto o som da ignição de um carro. Conheço esse som! É do carro do meu namorado! Jamais poderia esquecer. Sim! A voz era do meu namorado! Mas e a outra? Procuro um pouco mais fundo na memória. Minha cabeça dói. Reconheço, é dela, minha melhor amiga.
“Por quê?” pergunto a mim mesma.
Tamanha minha decepção, meus músculos, antes rígidos, agora se amolecem. A cabeça pesa. Pernas e braços cedem.
Caí.